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Dia 9 de setembro, dia do Médico Veterinário

A importância da Medicina Veterinária na Saúde Pública

Ao manter os cuidados com o rebanho na produção primária, fornecer matéria-prima de qualidade para a indústria de alimentação e controlar doenças, o médico-veterinário está preservando o bem-estar animal, ambiental e, consequentemente, a saúde humana.

O médico patologista alemão Rudolf Virchow (1821-1902) foi um dos primeiros estudiosos a dizer que entre animais e medicina humana não há divisórias. Mais tarde, nos anos 60, o médico-veterinário norte-americano Calvin Schwabe (1927-2006) reforçou a teoria e ainda desenvolveu o conceito que passaria a ser conhecido como Saúde Única (One Health), união entre as saúdes animal, humana e ambiental.

Apesar de a expressão ser recente, seu embasamento é antigo. Segundo Schwabe, os primeiros registros de atividade em saúde pública dentro da Medicina Veterinária teve como alicerce a higiene de alimentos, no final do século XIX e início do século XX. A partir desta base é que alguns poucos médicos-veterinários passaram a assumir posições administrativas em programas de saúde em vários países. Essa participação durou até a Segunda Guerra Mundial. Em 1946, o termo Saúde Pública Veterinária foi utilizado oficialmente pela primeira vez durante encontro da Organização Mundial da Saúde (OMS). Somente em 2007, na Conferência Ministerial Internacional sobre Influenza Aviária e Pandêmica, realizada em Nova Deli, na Índia, é que os governos foram encorajados a aplicar efetivamente o conceito de Saúde Única, construindo pontes de ligação com o objetivo de reduzir o número de doenças infecciosas resultantes da interface entre animais, humanos e ecossistemas.

O fluxo de pessoas pelo mundo a negócios ou turismo, além da comercialização de produtos, permitiu que agentes causadores de doenças rompessem as barreiras de proteção territorial e se estabelecessem onde antes não existiam. Doenças transmissíveis causadas por vírus, bactérias e parasitas encontraram neste cenário a oportunidade de se difundirem. A formação em Medicina veterinária permite que o profissional desempenhe muitos papéis na saúde pública, como controle e prevenção de zoonoses e de animais peçonhentos e inspeção de alimentos de origem animal. É possível também atuar em atividades que são mais comuns aos médicos e a outros membros da equipe de saúde pública, como epidemiologia, serviços de laboratório, produção e controle de produtos biológicos, avaliação e controle de medicamentos, pesquisa e saneamento ambiental em geral.

As zoonoses estão entre as atividades de saúde pública mais contempladas pela Medicina Veterinária, uma vez que causam importantes fatores de morbidade e pobreza, por meio de infecções agudas e crônicas causadas aos seres humanos, e pelas perdas econômicas ocasionadas na produção animal. A domesticação dos animais e a aglomeração de pessoas para constituir as cidades deram origem ao estreito contato humano, animal e ambiental. Este último é componente fundamental para estabelecer o elo entre o agente infeccioso que acomete o animal e o indivíduo.

Segundo a OMS, 60% das doenças infecciosas humanas têm sua origem em animais, como é o caso da leptospirose, raiva, dengue, doença de chagas, hantavirose, teníase, cisticercose, entre outras. Ao longo das últimas três décadas, 75% das novas doenças emergentes em humanos foram zoonoses. Margareth explica que a abundância de alimentos nas cidades gerou o acúmulo de resíduos e lixo, que por sua vez, trouxeram a migração e o aumento populacional desenfreado de espécies invasoras e sinantrópicas, portadoras dos mais variados agentes de doenças. Acrescente-se a isso, o fato de que na atualidade, a humanização dos animais de companhia, permitiu a proximidade dos seres humanos com as doenças de cães, gatos, aves silvestres, entre outros.

Alguns casos recentes chamaram a atenção, como a confirmação de mais de 72 casos positivos de Leishmaniose Visceral Canina (LVC) na cidade de Presidente Prudente, e mais de 100 em Tupã, ambas no interior. Em 2016, foram registrados 3.626 casos em humanos no País, sendo 119 em São Paulo, com 275 e 11 óbitos, respectivamente. A prevenção e a eliminação desse tipo de enfermidade no homem depende, em grande parte, das medidas adotadas contra essas doenças nos animais. Protegê-los das enfermidades certamente eleva a qualidade da saúde da população humana. Este é o foco atual da Medicina Veterinária em todas as suas áreas de atuação.

A situação de animais de rua também representa um problema de saúde pública. A “superlotação” de animais soltos pode propagar doenças graves, como a raiva. De acordo com a OMS, mais de 50 mil pessoas morrem todos os anos vítimas da doença no mundo, principalmente em países da Ásia e África, onde se concentram 95% dos casos de óbitos. A falta de responsabilidade da população em manter seus animais dentro dos limites domiciliares, com práticas adequadas de saúde e bem-estar , faz com que milhões de animais sejam negligenciados, mantidos em condições precárias ou abandonados, criando assim um ambiente favorável para a ocorrência de enfermidades, sejam elas físicas ou comportamentais.

Reconhecidamente, as organizações não-governamentais são hoje as grandes parceiras na minimização dos problemas de abandono e suas consequências. As entidades precisam estar envolvidas na adoção de medidas de prevenção e controle de doenças, pois são agentes importantes da saúde coletiva. Sem esses parceiros, que possuem uma ligação constante com médicos-veterinários, que são os profissionais com formação e conhecimento para auxiliar no controle de diferentes enfermidades, não teríamos chance de agir correta e eficazmente e obter os resultados esperados.

O médico-veterinário também está capacitado para planejar e executar medidas de prevenção e controle de enfermidades como as arboviroses, que incluem o vírus da febre amarela, dengue, zika e chikungunya. Essas doenças têm origens multifatoriais, não estão ligadas a uma ou outra exclusivamente, mas sim a diversos agentes que se relacionam. Assim, as arboviroses inserem o médico-veterinário na saúde ambiental, já que o vetor está ligado a esse universo.

São muitas as preocupações referentes à saúde ambiental que fazem parte das atividades desenvolvidas pelo médico-veterinário, visto que as mudanças que ocorrem nos diversos ecossistemas do planeta têm os primeiros efeitos negativos observados nos animais, sejam eles domésticos ou silvestres. A poluição do ar e da água comprometem a disponibilidade de alimentos, plantas, frutos e outras fontes nutricionais, e provocam doenças respiratórias e carências metabólicas nos animais. Por essa razão, o médico-veterinário tem um papel preponderante no monitoramento das doenças ocorridas no meio ambiente, na saúde e no comportamento da vida, pois é capaz de identificar fatores de risco e agir de modo preventivo na redução e controle desses fatores, o que lhe confere a liderança nessa área.

É de sua responsabilidade inspecionar e avaliar todos os alimentos de origem animal que chegam à mesa dos consumidores, além de desenvolver estudos e pesquisas de novas vacinas para tratamento e erradicação de doenças transmitidas por animais. Com o crescimento da comercialização de produtos de origem animal e industrializados, houve uma necessidade de seguir ainda mais rigorosamente as normas de segurança alimentar. O médico-veterinário deve acompanhar o produto desde a produção até o ponto de venda, passando pela sanidade animal, qualidade e higiene de produção, conservação e comercialização.

No campo da saúde ambiental, a prática profissional do médico-veterinário torna-se cada dia mais necessária ao passo que a busca do desenvolvimento sustentável esbarra no estabelecimento da saúde das populações.

A interdiciplinaridade da Medicina Veterinária no Núcleo tem sido reforçada desde 2011, quando os médicos-veterinários passaram a fazer parte do NASF - Núcleo de Apoio à Saúde da Família. Tem como um de seus focos as doenças de caráter zoonótico e o desequilíbrio ambiental que tem levado ao aumento do número de animais sinantrópicos, além da emergência e reemergência de enfermidades, em especial as arboviroses. A carência de alimentos e de proteínas nobres derivadas do leite, dos ovos e das carnes, ou a falta de qualidade deles, também constituem um sério problema de saúde pública.

Como visto, o médico-veterinário possui papel fundamental na área da saúde pública e está inserido em diferentes atividades que podem contemplar desde a gestão e o planejamento em saúde, até a mais tradicionalmente conhecida vigilância sanitária, epidemiológica ou ambiental.

 

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